IT – A Coisa: A volta do terror

Não a muito tempo atrás, os filmes de terror tiveram uma mudança brusca em seus conceitos, estilos visuais e sonoros que foram completamente remodelados, hoje temos muito menos apelos visuais e times dramáticos pois deram lugar há grandes lacunas de som seguidas por uma brusca, estridente e alta sonorização, juntamente com uma tela escura sem muita visibilidade do que está acontecendo, ai vemos a mostra de algo na tela que vem de repente sincronizado com o som alto isso é o que atualmente é a característica do Terror atual, não necessariamente é uma coisa ruim, é apenas um estilo diferente, mas que a indústria do cinema ficou restrita a ela por um bom tempo, até agora.

Comparo esses filmes com a receita de miojo, você compra, abre o pacote coloca no fogo com água quente e está pronto em 3 minutos, você gastou pouco, não tem valor nutricional nenhum além da quantidade de sódio absurda para dar um gostinho, mas você compra só porque fica pronto rapidinho e é fácil de fazer, e “mata” a fome. São esses os filmes de terror atual que tem um roteiro muitas vezes idênticos, mudando personagens e locais, são baratos de fazer, tem toneladas de jumpscare, não tem valor conceitual nenhum mas vendem que nem miojo. Estamos falando ai dos mais recentes Annabell: A Criação, Quando as Luzes se Apagam, até mesmo o Invocação do Mal 2 teve que trazer um pouco mais desse atual terror.

Quando se diz que no início eram trevas e ai criou-se a luz, nesse caso é o contrário, no início era luz e hoje é trevas, filmes clássicos do terror, como A Volta Dos Mortos Vivos (George A. Romero), Nosferatu (Friedrich Wilhelm Murnau), White Zombie (Victor Halperin) com o querido Lugosa, Evil Dead (Sam Raimi, 1981) eles nos trazem uma sensação de terror além de um susto no meio de suas em média, 1h 30 min. Você se sente aterrorizado com os zumbis fora da casa sem ao menos os verem como em A Volta dos Mortos Vivos, você sente o terror percorrendo suas veias somente com o silêncio e com o olhar penetrante de Lugosa em White Zombie esse é o terror de raiz, um terror mais conceitual, mas elaborado, com um roteiro que tenta fazer o público ficar envolvido com a trama e aterroriza-la apenas com uma chuva de sangue, que sozinha é irrelevante, mas com um roteiro bem construído te faz ter arrepios como em Evil Dead (Fede Alvarez, 2013).

Se pegarmos uma franquia cinematográfica bem conhecida como Resident Evil, podemos notar claramente a evolução do filme de Luz para Trevas. O primeiro filme não chega a ser uma obra prima mas tem seus conceitos bem definidos, sua história bem construída e momentos de terror no silêncio, algumas das cenas são perturbadoras, lembram do primeiro zumbi que carrega aquele machado, o barulho de fundo arrepia até a alma. Já em compensação o último da franquia, (Que ao que tudo indica não será o último, e sim teremos um reboot logo) vemos que o terror virou uma ação desenfreada com tiros e jumpscare para TODOS os lados, barulhos altíssimos só para assustar o espectador, é fraco em roteiro e percebe-se que não existe uma ligação concreta entre todos os filmes da franquia (Igual ao Jogos Mortais, por exemplo). É apenas um filme de terror que não é de terror, ele causa medo, mas não causa pânico, não deixa seus pelos do corpo arrepiados.

Seguindo por essa linha, temos muitos outros filmes que usam a mesma receita do Miojo.  Annabelle, com sua história meia boca, com um demônio que de amedrontador não tem nada, até tenta ter algumas cenas um pouco mais elaboradas, mas elas ficam soltas no meio da trama e não agregam nada ao filme. A sua “ continuação”, que é um prelúdio, traz muito mais desse conceito de medo no silêncio, mas as cenas são muito mal feitas, ângulos mal escolhidos, escuridão total em algum momentos, e tudo vira uma grande piada no final e as pessoas ao invés de terrem medo, começam a rir. (Foi o que aconteceu quando eu assisti no cinema)

Temos várias tentativas bem sucedidas atualmente, uma delas é Ao cair da Noite (Trey Edward Shults), que tem todo o enredo montado em cima desse terror no silêncio que venho falando, o terror não está ali presente na tela, ele está implícito na trama, no roteiro, na feição dos personagens, nas câmeras claustrofóbicas, até mesmo as cenas totalmente pretas fazem sentido pois elas tem um lugar na narrativa e aos poucos o espectador vai notando que o terror está fora, está na ideia de que algo pode estar por vir, é o terror dos personagens passado ao expectador.

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Então chegamos aos dias atuais, IT acabou de sair nos cinemas e já está fazendo estourando a boca do balão, todos estão apaixonados pelo filme do “palhaço maníaco que mata criancinhas”. A Coisa é um filme espetacular, um filme de terror que conta uma história bem complexa, faz piadas em momentos corretos, te dá susto jumpscare para você dar aquela levantada da cadeira, e uma acordada nas suas 2 horas de duração.

IT consegue ser um filme enxuto, condensa metade de um livro de 1000 páginasmas mesmo assim é dinâmico, ele praticamente não te da folego, a Coisa (Pennywise) aparece no filme do início ao fim, não há momentos gigantes de relaxamentos com longos períodos de “nada”, mas há sim momentos de descontração que são seguidos por grandes tensões, e assim o filme segue, talvez você não consiga nem respirar ou olhar para o lado pois você não vai querer perder um segundo dessa obra prima.

Os atores fazem um excelente trabalho, os personagens principais são tão convincentes e carismáticos que qualquer coisa que acontece com eles, fazem você dar um suspiro fundo e berrar com o Pennywise esse que tem um carisma absurdo mesmo com aquela cara de maníaco, faz você sentir uma sensação muito estranha quando você olha para ele, uma mistura de medo com alegria (Querendo ou não ele é um palhaço fofinho) naquele olhar penetrante dele.

A cena inicial mostra tão bem isso, o olhar penetrante, o sorriso na sua boca, a alegria e a vontade de morder o pobre e indefeso George, reparem como ele saliva nos momentos em que ele fala, ele chega a se engasgar em alguns momentos. Simplesmente sensacional.

Enredo, conceito e história, IT veio para marcar a possível nova era de terror que não apela aos jumpscare e ao conceitos miojo, espero que os novos filmes aprendam com essa grande produção, e agora é sentar e esperar a sua continuação que já foi confirmada.

Quanto a sua semelhança com a obra escrita, ele tem mesma ideia do livro, mas as cenas são alteradas para fazerem jus a uma obra cinematográfica, mas como o conceito e a ideia são as mesmas, o filme, mesmo com várias coisas alteradas, tem o mesmo sentido do livro, e isso vai deixar os fãs da obra muito contentes, o que já reflete nas bilheterias de todo o mundo.

IT é um filme que veio em um ótimo momento, no momento em que o Terror já estava sendo esquecido, o terror de “verdade”.

Obrigado IT por nos fazer lembrar o que é um bom terror, o terror do silêncio na tela e a claustrofobia na escuridão de uma sala de cinema.

 

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