Como David Lynch transformou a minha forma de ver cinema

Se você não conhece a obra de Lynch e está disposto a ver e sentir coisas únicas, eu te convido a entrar no mundo que descreverei a seguir. Mas tem que estar disposto de verdade.

O cinema sempre esteve presente na minha rotina, desde os filmes do Van Damme e Jackie Chan quando jovem, até o cinema americano e italiano dos anos 60, atualmente. Durante esse tempo, me empolguei com o estilo do Tarantino, refleti com os diálogos do Woody Allen e me choquei com a ousadia de Lars Von Trier.

Há poucos anos eu fui achar um filme chamado Cidade dos Sonhos, não tinha nenhum spoiler a respeito, mas sabia que era de um diretor renomado. Resultado: eu não entendi nada, dormi no meio e fiquei com muita raiva daquelas horas perdidas. Quem já viu o filme, deve entender do que eu estou falando. A história parece linear, até o momento em que um personagem tem outra personalidade, outro nome e você tem a sensação de que perdeu alguma parte do filme.

David Lynch
Cidade dos Sonhos

Não contente com o fracasso, algum tempo depois, fui assistir Império dos Sonhos. Novamente eu não entendi nada, nesse eu dormi mesmo (não sei se dormi no primeiro, talvez tenha sido nos dois). Era difícil dar créditos a esse diretor que me sacaneou duas vezes.

Mais algum tempo se passou e a história de O Homem Elefante me chamou atenção. O ambiente sujo, as cenas cruéis, a realidade de uma pessoa vista como atração pela sociedade, tudo que envolvia o desfigurado John Merrick fez muito sentido pra mim.

Mal sabia eu que “sentido” não tem nada a ver com o cinema de Lynch.

David Lynch
Veludo Azul

Depois de me encantar pela história do filme anterior, veio um filme pelo qual fui atingido em cheio, nem tanto pela história, mas pelas linguagens e técnicas estranhas que me provocaram sensações absurdas: Veludo Azul é um filme repleto de mistérios e desfechos meio bizarros. É um filme de David Lynch. O meu favorito dele. Ele se torna inesquecível pela aura, as cores, as músicas, os olhares dos personagens. O protagonista Jeffrey é cheio de carisma e ousadia, interpretado por Kyle MacLachlan, que mais tarde se tornaria o astro da série de Lynch e também figura marcante em mais uma experiência audiovisual única.

Vamos sair desse mar de prazeres certos e voltar para a terra de difícil acesso que é Cidade dos Sonhos. Dessa vez eu fui preparado, ciente de todas as facetas do diretor e aberto a novas experiências. Mesmo com toda a atenção, o roteiro só teve sentido depois de ler muitas teorias na internet. Mas pra quê coerência, quando há um suspense que você não sabe de onde vem, que é apenas sentido. Assistir Cidades dos Sonhos é como estar embriagado, você luta para estar consciente, mas não consegue e no final resta apenas a ressaca de não entender nada. A satisfação de achar cada peça do quebra cabeça é demais, mas ele nunca fica completo.

Após passar por tudo isso, agora em 2016, descobri que o diretor havia feito uma série para a televisão em 1990. Twin Peaks foi um fenômeno na época e influenciou diversas séries que foram feitas depois. 8 episódios na primeira temporada e 22 na segunda. Estava ali: tudo e mais um pouco do que Lynch fazia nos longas em uma história de várias e várias horas, o que foi um deleite para os meus sentidos. Reviravoltas, personagens carismáticos, humor, terror, mistérios e mais mistérios e, é claro, os sonhos e fantasias que sempre foram marcantes na obra de Lynch. Cenários e trilha sonora marcantes. Twin Peaks acabou e deixou um vazio imenso, ainda mais depois do absurdo último episódio, uma das melhores coisas que já vi na telinha do meu notebook.

A essa altura eu já era um fã do diretor, mas não havia chegado no que ele realmente viria a me dizer. Buscando por coisas novas, eu assisti Rabbits um filme pequeno, onde coelhos vestidos de humanos, quer dizer, humanos com fantasias de coelhos convivem em uma sala. Pode parecer que não faz nenhum sentido, e não faz mesmo. Não é pra fazer, isso sou eu que estou dizendo, porque Lynch, quando questionado sobre o significado de suas produções, nunca revela nada. Para ele, cada um tem uma experiência na frente da tela e para cada um as coisas que se passam ali podem ter um significado diferente. Os coelhos não falavam nada com nada, mas me sussurraram algo: “Por que não? ”

No final de 2016 ou início de 2017 surgiu a notícia da volta de Twin Peaks para o segundo semestre do mesmo ano. Mais de 25 anos, ou poucos meses pra mim, do fim da série, ela volta, com Lynch no comando e com a maioria do elenco original. Era a expectativa de mais uma experiência audiovisual única. Em meio a essa espera, ou talvez durante a nova temporada da série, assisti mais dois filmes: Estrada Perdida, um filme completo para conhecer Lynch, com toda a confusão de Cidade dos Sonhos e toda a magia de Veludo Azul; e Eraserhead, repugnante, melancólico e um causador de sensações estranhas, incômodas.

David Lynch
Eraserhead

Vamos voltar a aguardada terceira temporada de Twin Peaks.

Não foi nada, nada parecido com o que eu esperava. Não só eu, choveram críticas negativas. Todos esperavam uma continuação da história, que por mais que fosse louca, possuía uma linearidade. Para começar, o protagonista, Dale Cooper (Kyle MacLachlan) o mesmo de Veludo Azul, que foi o grande símbolo da série, estava desfigurado. Ele foi separado em dois personagens (bem e mal) mas nenhum possuía a personalidade do Cooper original. Isso fez com que muitos dos fãs se sentissem afastados da história. Outros fatores marcantes, foram os desfechos que não aconteceram, as cenas longas sem nenhuma função narrativa. Não gostei dessa temporada.

David Lynch
Twin Peaks

Mas não vou encerrar o texto assim. Lynch não liga para a minha opinião e nem para de ninguém.

Ao anunciar o retorno da série, o Canal Showtime disse que o diretor tinha carta branca para fazer o que quiser. E ele abusou disso. É louvável ver que Lynch, diretor consagrado, ainda tenha saco, entusiasmo e coragem para experimentar.

Ele sempre foi fora da curva. Ingenuidade minha e, de todos, acharmos que no retorno de Twin Peaks seria diferente. Esperávamos nostalgia, e ela nos foi dada, só que em doses reduzidas. Lynch só queria experimentar, como sempre o fez. O resultado não foi o melhor, mas foi Lynch de novo, quem sabe pela última vez, já que anunciou que não mais dirigiria filmes. Se acontecerá uma quarta temporada, não sabemos, mas sabemos que ele sempre estará EXPERIMENTANDO.

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